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08
Jun 08

Para os ocidentais, a História do Timor deve ter começado em 1512:
há uma carta de 1514 ao rei D. Manuel I de Portugal relatando a existência da ilha do sândalo. Mas é evidente que, para os timorenses, a História começou muito antes, não se sabe exatamente quando. Abaixo apresentamos alguns contos e lendas que trata do surgimento do Timor.


 

1º Parte

 

 

 

O crocodilo que se fez Timor

Disseram, e eu ouvi, que desde há muito séculos um crocodilo vivia num pântano. Este crocodilo sonhava crescer, ter mesmo um tamanho descomunal. Mas a verdade é que ele não era só pequeno, como vivia num espaço apertado. Tudo era estreito à sua volta, somente o sonho dele era grande.
O pântano é de ver, é o pior lugar para morar. Água parada, pouco funda, suja, abafada por margens esquisitas e indefinidas. Ainda por cima, sem abundância de alimentos ao gosto de um crocodilo.
Por tudo isto, o crocodilo estava farto de viver naquele pântano, mas não tinha outra morada.
Ao longo do tempo, milhares de anos, parece, o que ia valendo ao crocodilo era o ele ser grande conversador. Enquanto estava acordado, conversava, conversava... É que este crocodilo fazia perguntas a si mesmo e, depois, como se ele próprio fosse outro, respondia-se-lhe.
De qualquer maneira, conversar assim, isoladamente, durante séculos, gastava os assuntos. Por outro lado, o crocodilo começava já a passar fome. Por dois motivos: primeiro, porque havia naquele charco pouco peixe e outra bicharada que lhe conviesse para a refeição; segundo, porque só muito ao largo passava caça de categoria e tenra: cabritos, porquinhos, cães...
Muitas vezes, exclamava para si próprio:
- Que grande maçada viver com tão pouco, e num sítio destes!
-Tem paciência, tem paciência... - dizia a si próprio.
-Mas viver de paciência não é coisa que alimente um crocodilo - recalcitrava-se-lhe.
Naturalmente que tudo tem um limite. Incluindo a resistência à fome. E o crocodilo entrou a sentir uma fraqueza que lhe quebrava o ânimo e o definhava. Os seus olhos iam-se amortecendo e já quase não podia levantar a cabeça e abrir a boca.
- Tenho que sair deste lugar, e procurar caça mais além...
Esforçou-se, galgou a margem e foi ganhando caminho através do lodo e, depois, da areia. O sol estava a pino, aquecia a areia, transformava todo o chão em brasas. Não havia safa, o crocodilo perdia o resto de suas forças e ia ficar, ali, assado.
Foi nesta altura que passou pelo sítio um rapazinho vivaz que exprimia os seus pensamentos cantarolando.
- Que tens, Crocodilo, ha!, como tu estás?! Tens as pernas partidas, caíu-te alguma coisa em cima?
- Não, não parti nada, estou completamente inteiro, mas apesar de ser pequeno de corpo, há muito não aguento com o meu próprio peso. Imagina que nem forças tenho já para sair deste braseiro.
Respondeu o rapazinho:
- Se é só por isso, posso ajudar-te - e logo de seguida, deu uns passos, carregou o crocodilo e foi pô-lo à beira do pântano.
No que o rapazinho não reparava, era que, enquanto carregava o crocodilo, ele se animava a ponto de arregalar os olhos, abrir a boca e passar a língua pela serra dos seus dentes.
- Este rapazinho deve ser mais saboroso do que o que provei e vi em toda a minha vida - e imaginava-se a dar-lhe uma chicotada com a cauda para adormecê-lo e depois, devorá-lo.
- Não sejais ingrato - diz-lhe o outro com quem ele conversa e era ele mesmo.
- A fome tem seus direitos.
- Isto, é verdade, mas olha que trair um amigo é um ato indigno. E, este, é o primeiro amigo que tens.
- Então, vou deixar-me ficar na mesma, e morrer à fome?
- O rapazinho fez-te o que era preciso, salvou-te. Agora, se quiseres sobreviver, trabalha, e procura alimento.
- Isso é verdade...
E quando o rapazinho o pousou no chão molhado, o crocodilo sorriu, dançou com os olhos, sacudiu a cauda e disse-lhe:
- Obrigado. És o primeiro amigo que encontro. Olha, não posso dar-te nada, mas se pouco mais conheces do que este charco, aqui, tão à nossa vista, e se um dia quiseres passear por aí fora, atravessar o mar, vem ter comigo...
- Gostava mesmo, porque o meu sonho grande é ver o que mais há por esse mar a fora.
- Sonho... falaste em sonho? Sabes, eu também sonho... - arrematou o crocodilo.
Separaram-se, sem que o rapazinho sequer suspeitasse de que o crocodilo chegara a estar tentado comê-lo. E ainda bem.
Passados tempos, o rapazinho apareceu ao crocodilo. Já quase o não reconhecia. Via-o sem sinais das queimaduras, gordo, bem comido...
- Ouve, Crocodilo, o meu sonho não passou e eu não aguento mais cá dentro.
O prometido é prometido... Aquele meu sonho... Mas com tanta caça que tenho arranjado, quase me esquecia dele. Fizeste bem em vir lembrar-mo, Rapazinho. Queres, agora mesmo, ir por esse mar afora?
- Isso, só isso, Crocodilo.
- Pois eu, agora, também. Vamos então.
Ficaram ambos contentes com o acordo. O rapazinho acomodou-se no dorso do crocodilo, como numa canoa, e partiram para o alto mar.
Era tudo tão grande e tão lindo!
O mais surpreendente para os dois, era o próprio espaço, o tamanho do que se estendia à sua frente e para cima, uma coisa sem fim. Dia e noite, noite e dia, nunca pararam. Viam ilhas de todos os tamanhos de onde as árvores e as montanhas lhe acenavam. E as nuvens também. Não sabiam se eram mais bonitos os dias se as noites, se as ilhas se as estrelas. Caminharam, navegaram, sempre voltados para o sol, até o crocodilo se cansar.
- Ouve-me, Rapazinho, não posso mais! O meu sonho acabou...
- O meu não vai acabar.
Ainda o rapazinho não tinha dito a última palavra, o crocodilo aumentou, aumentou de tamanho, mas sem nunca perder a sua forma primitiva, e transformou-se numa ilha carregada de montes, de florestas e de rios.

De Canto e Lenda Maubere, recolhido por Fernando Sylvan


O gigante e a lua

Noutros tempos habitava em Timor um gigante chamado Beilera, duma estatura tão desmedida, que, pondo-se de pé, facilmente com a mão chegava às estrelas.
Uma vez, um filho do gigante, estando ao colo do pai, estendeu-se o braço e com a mão sujou a Lua com banana assada e cinza.
Este gigante teve um fim horrivelmente trágico. Casara. Ainda a noite não tinha envolvido inteiramente na Terra no seu negro manto, já o gigante, cansado, recolhera mais tarde. Já no leito, repara esta que entre os dois se interpusera uma jibóia gigante, de grossura e comprimento assombroso.
Rapidamente agarra a espada (catana) de guerra do gigante e a golpes repetidos a ataca. Só depois e já sem remédio, veio a reconhecer que o gigante se esvaía em sangue, morrendo juntamente com a jibóia.
Na planície de Quirás, no posto de Fatu-Berilo, região de Manufai, foi enterrado o gigante Beilera, mas para caber nas covas que lhe abriram, tiveram de o dividir em sete partes.

De Mitos e Contos do Timor Português, de Correia de Campos



LENDAS

 
A princesa das flores e lágrimas

Soubera um príncipe que num reino vizinho vivia uma princesa de tão surpreendente beleza que, ao falar, deitava flores pela boca e, ao chorar, lágrimas de ouro.
Desejando-a em casamento, foi o príncipe procurar o irmão da princesa e propôs a este, como em desafio, promovessem, segundo o uso tradicional, um combate entre dois galos, um do príncipe e o outro do irmão da princesa. Se o galo deste último vencesse o do primeiro, este perderia o reino; na hipótese contrária, o adversário dar-lhe-ia a irmã.
Quis a sorte que saísse vencedor o galo do apaixonado príncipe, que assim impôs a sua vontade. Marcado o encontro com a noiva na fronteira dos dois reinos, o príncipe logo partiu para arranjar luzidio cortejo.
Devido a um equívoco havido com a data marcada, a princesa chegou ao local combinado dois dias antes do príncipe. Uma escrava, enquanto dormia, amordaçou-a para não gritar e arrastou-a até um alto escarpo, donde deitou ao mar. Seguidamente foi ocupar-lhe o lugar, apoderando-se das vestes da princesa.
Realizado com toda a pompa o casamento, a falsa princesa nem por uma vez pronunciara qualquer palavra. Mas o príncipe, já desconfiado, perante o mutismo da consorte que durava três dias, viu-se forçado a bater-lhe para a faz gritar e chorar, reconhecendo assim que a noiva não era a sua escolhida, porque não via as flores derramadas da boca de sua amada, nem as pepitas de ouro, em que se transformavam as suas lágrimas.
Julgando que fora propositadamente ludibriado pelo cunhado, dando-lhe outra mulher, pensou apoderar-se do pretenso culpado pela astúcia, para o que, aparentando muita amizade o convidou a visitar o seu reino.
A princesa, porém, ao ser deitada ao mar, tinha sido salva por um crocodilo, dizendo-lhe este que ali estava para proteger, por ser seu avô.
O crocodilo todos os dias punha a princesa ao corrente do que se ia passando.
Logo que soube da traição feita ao irmão, a princesa pediu ao crocodilo que a levasse a vê-lo. Irradiando de si uma suave claridade, o jacaré transportou-a docemente até à praia.
A princesa dirigiu-se aos guardas da prisão, aos quais pediu que a deixassem ver o irmão. Ao falar caíram-lhe flores pela boca, como de costume, o que convenceu logo os guardas.
Entretanto na prisão, ao ver o príncipe, seu irmão, de gonilha (instrumento de madeira, usado pelos nativos, para os presos não poderem fugir) aos pés e com os braços fortemente ligados, chorou aflitivamente, caindo-lhe dos olhos belas pepitas de ouro.
Acabada a visita, o irmão pediu-lhe que escondesse as flores e a pepita de ouro, porque se a falsa princesa soubesse que ainda era viva, certamente os mandaria matar. A princesa retirou-se, e ao outro dia apareceu novamente aos guardas para ir ver o preso, e caindo-lhe, como na véspera, ao falar, flores pela boca.
Os guardas da prisão foram contar ao príncipe tudo quanto tinham presenciado naqueles dois dias. O príncipe resolveu então vestir-se como um nativo para, ao outro dia, se certificar das afirmações que lhe eram feitas.
Entrando abruptamente na prisão, e ao ver as lindas pepitas de ouro, que corriam do meigo rosto da princesa e as braçadas das belas e aromáticas flores, que suplicava, bem como ao irmão, mil perdões e dizia que só com a princesa desejava casar. Mas esta respondeu ser impossível poder algum dia casar com ele, por ter ficado conspurcado pela sua união com a escrava. Todavia, o príncipe tanto implorou, que ela por fim condescendeu em casar com ele, mas com a condição de mandar queimar num forno a escrava, e de dar metade do seu reino ao cunhado como indenização. É claro que o príncipe aceitou e executou estas duas condições.

De Mitos e Contos do Timor Português, de Correia de Campos


Uma catanada corta a cabeça das estrelas

A mulher velha costumava ir todos os dias ao céu buscar o fogo. Tinha um filho de mau gênio, que certa vez, por sua mãe se demorar mais do que habitualmente, corto a árvore por onde ela subira. E assim o céu até então assentado na árvore, desabou, soltou-se e foi ocupar o lugar que tem hoje, subindo no espaço.
Em seguida, e para evitar qualquer castigo, foi falar com tio Beiduro, contando-lhe a maldade que fizera à mãe, cortando-lhe a árvore pela qual ela deveria ter descido.
Indignado, o tio Beiduro convidou Berloi, Carloi que, Beicolicáteri e Beibercoli a fim de que todos fizessem guerra ao céu.
Por seu lado, Deus determinou às estrelas (que eram reis) dessem combate aos homens com todas as forças ao seu alcance. Forças que eram os animais da criação.
Vagas sucessivas de soldado atacaram de repente os guerreiros e fizeram-nos recuar.
Porém, os guerreiros contra-atacaram sem parar e o resultado era o mesmo - tiveram de recuar, em virtude do ataque cerrado dos animais.
Depois de vários anos de fracassos, os homens convenceram-se que era impossível vencer os animais pela força e recorreram à astúcia. Para dar combate aos lacraus, serpentes e outros animais venenosos, incendiaram os arbustos e árvores: para lutar contra as formigas, pintaram as árvores com uma fruta oleosa chamada cámi: contra as vespas e abelhas, deram-lhes mel envenenado e contra os restantes animais carnívoros a tiram-lhe a carne que deveriam comer.
E deste modo foram destruídos os animais inimigos do homem e os heróis Berloi, Carloique, Beicolicáteri e Beibercoli surgiram instantaneamente no céu e cortaram a cabeça às estrelas. A partir daí, quando vem a noite, o sangue jorra dos corpos decapitados que reluzem no firmamento.
Deus não se vingara do corte das cabeças, mas, voltando-se para os heróis, disse-lhes sabiamente: "Vós, que fostes mais fortes que as estrelas, levai para a Terra essas colunas e pedras redondas", apontando os objetos. E acrescentou: "Mais ainda vos quero dar como recompensa três laranjas, tantas quantas os meus filhos"
Beiduro comeu logo a sua pelo caminho, mas Berloi e Carloique guardaram.
Quando teve conhecimento da sorte dos seus antigos companheiros de luta, Beiduro interpelou Deus, pedindo-lhe para guardar também uma laranja, mas Deus entanto, para que Beiduro não ficasse tão amargo, ofereceu-lhe para guardar também uma laranja, mas Deus respondeu-lhe que só tinha a três que já dera, tantas quantos os seus filhos. No entanto, para que Beiduro não ficasse em desigualde, foram ter com Deus e o Ser Supremo decidiu recompensá-los outra vez, ensinando aos dois a ciência das segundas sementeiras.

De Mitos e Contos do Timor Português, de Correia de Campos


A ilha

Oi, meninas e meninos. Eu sou o professor Komodo, e quero contar histórias para todas as crianças do Brasil. Acabo de chegar lá no Timor-Leste, que é um país longe do Brasil, muito longe mesmo daqui. Tenho vigiado muito pelo mundo para conversar com as crianças, aquelas que são estudiosas, obedecem aos pais a aos professores.
Lá no Timor-Leste dizem que sou um professor muito careta, porque vivo falando de crocodilos, e tenho um nome esquisito. Mas o meu nome Komdo é porque lá perto do Timor, num país chamado Indonésia, há uns crocodilos enormes que têm este nome Komodo. Mas vamos às histórias.
Havia um lugar chamado Celebres, em que o sol ficou tão quente, mas tão quente, que a águia começou a secar, as árvores a morrer e os animais resolveram fugir de lá. Sem o cantar dos pássaros, sem água e sem vegetação, as pessoas deixaram a ilha de Celebes.
Um crocodilo muito teimoso não queira sair da sua morada, e ficou muito fraco por não ter o que comer. A morada que era na lagoa ficou seca e, então resolveu também deixar o lugar, mas não tinha forças para se locomover, ainda mais com aquela escama grossa e pesada que ele tem, além da cauda que também não é leve. Não conseguiu nem sair do lugar, pesadão como era.
Não foi só o crocodilo que ficou sozinho. Havia um menino muito preguiçoso, malcriado e teimoso igual ao crocodilo e que não obedecia a ninguém, que também não quis sair de Celebres. Então, o pai dele deixou um pouco de água e de comida, antes de partir com o restaurante da família.
A água que o pai dele deixou, guardada na sombra, com aquele calor, estava ficando pouca, dentro de um pote feito de barro. A comida só dava para poucas refeições. Aí, o menino se arrependeu da rebeldia e de ter sido malcriado, e quis acompanhar os pais que já estavam muito longe. Impossível mesmo de alcançá-lo. O sol ardia demais, e sem nuvens no céu, descalço, continuou andando. Folhas secas aqui e ali, pedregulhos e terra quente queimavam a sola dos pés do menino. Sem árvores que dessem sombras e sem, pelo menos, algumas frutas para comer, cansado, com a mochila feita de cipós, levada a sombra de uma grande pedra, onde antes era uma lagoa. Tudo era silêncio, a não ser gravetos que, sob sol ardente, às vezes estalavam. Olhando com os olhos quase fechados, pelo calor e cansaço, viu do outro lado da lagoa seca uma coisa grossa e cascorenta se mexer. Oba! Exclamou o menino, contente por ver alguma coisa ainda com vida.
O menino se aproximou daquilo, e viu que era um crocodilo quase morto pela fome e sede. Então, repartiu a comida e a água com ele,o crocodilo comeu e ficou quase forte, deu uma coalhada na cauda, levantando pó, e tentou sair do local. Mas ainda um pouco fraco, um pequeno relevo na borda de onde antes era lagoa o enroscou. O menino, então, puxou o crocodilo pela cauda, sentou-se ao lado dele e perguntou:
- Você está bem? O crocodilo, de olhos arregalados, olhou de lado para o menino, lambeu os beiços, satisfeito pela refeição, respondeu que sim e disse: Não podemos ficar aqui. Você é meu amiguinho a partir de agora, venha comigo, e vamos encontrar um lugar para viver, quem sabe, uma ilha no grande oceano. Lá no mar, monte nas costas e, como eu sei nadar muito bem, logo encontraremos algum lugar com muita comida para nós. O menino sorriu e fez bilo-bilo no nariz do crocodilo, que sorriu abrindo aquele bocão cheio de dentes agudos.
Até chegar ao mar, estava longe, demorava. O crocodilo começou a sentir fome, olhava aquele menino queimadinho pelo sol, corpo limpinho, pensou em come-lo. Mas mudou de idéia, pois seria muita ingratidão comer o menino que o salvou, foi solidário e amigão.
Chegaram à praia, e o menino montou nas costas do crocodilo. Era cascudo, duro mesmo, mas como não havia almofada, teve de agüentar firme sentado, com as pernas abertas, sobre o lombo do crocodilo, e seguiram mar afora.
Em alto mar, um peixe grande, muito distraído, quando passava em frente do crocodilo foi abocanhado. O crocodilo parou de nadar e, após comer o peixe, sentiu uma coisa estranha, começou a crescer e se esticar, e o menino teve de juntar as pernas, o crocodilo foi crescendo, crescendo... E se transformou numa grande ilha comprida, em forma de crocodilo, cheia de árvores frutíferas e com muitas flores. O menino deu à ilha o nome de Timor, que significa oriente e, como símbolo do Timor, ficou o crocodilo.

A Ilha (do livro Crocodilo Timorense, de Paulo Veiga)

 

No princípio, há muitos séculos

Em tempos passados, já muito distante, partiram para We-Hali alguns príncipes de Samoro, a fim de aí contratarem a princesa que deveria casar com o príncipe desta terra.
Quando chegaram a We-Hali, já ali encontraram gente de vários reinos, a solicitar também a real donzela.
Os de We-Hali, manhoso, enfeitaram muito bem mulheres de nobre estirpe e apresentaram-nas aos emissários, para que entre todas, escolhessem aquela que mais prendesse os seus olhares.
Os de Samoro, antes que penetrassem no palácio real, em conversa amiga com as serviçais do régulo, tentaram saber qual, de entre elas, será a verdadeira princesa.
Estas responderam que nenhuma daquelas era a verdadeira princesa, mas sim uma outra que estav na cozinha, vestida de criada.
Assim, quando os de Samoro entraram no palácio para escolher sua rainha, não se decidiram por nehuma das que os de We-Hali apresentaram aos seu olhares, mas indicaram aquela criada que estava a trabalhar na cozinha.
Os de We-Hali, vendo isto, opuseram-se, não concordaram.
Os de Samoro, cientes de que os We-Hali não satisfariam os seus desejos, combinaram levar a princesa, e fizeram-lho saber secretamente por meio de suas aias.
Esta, informada de tão arrojada decisão, concordou jubilosa.
Então, à meia noite em ponto, quanto todos dormiam, os de Samoro, com suas artes mágicas, tomaram a princesa e fugiram logo naquela noite, caminhando sempre, até que atingiram logo naquela noite, caminhando sempre, até que atingiram as fronteiras de We_Hali, antes de romper o dia.
Deste modo, chegaram à margem duma ribeira chamada We-Nunuk.
De repente, a ribeira encheu, e apareceram à flor da água inúmeros crocodilos a defender a sua rainha.
Então esta, sendo para eles a "Filha do Sol" e, por isso, senhora de todos os elementos, falou-lhes amigavelmente e fez com eles o seguinte pacto: deviam transportá-la, a ela e aos homens de Samoro, para a outra margem da ribeira. Feito isto, os de Samoro e todos os seus descendentes, de geração em geração, jamais lhes fariam mal, nem comeriam nunca a sua carne.
Os crocodilos aceitaram a proposta da princesa e puseram-na do lado de lá da ribeira, a ela e a todos quantos vinham no seu séquito.
E depois que passou toda a gente de Samoro, as águas da ribeira começaram a subir e apareceram ainda mais crocodilos à superfície, a barrar a passagem aos de We-Hali, que vinham em perseguição dos de Samoro, a fim de se apoderarem novamente da sua rainha.
Já na outra margem, os de Samoro deram largas ao seu regozijo pela vitória alcançada, e inda hoje continuam a cantar:
"Gabavam-se de que We-Nunuk levava muita água,
Mas os de Samoro passaram-na a pé enxuto!"

Devido a esta lenda, os de Samoro, ainda hoje, têm em grande veneração os crocodilos, não lhe fazem mal e chamam-lhe avô.
Quando, entram em qualquer represa das ribeiras onde possa haver crocodilos, põem -se a dizer:
"Avô, não faças mal, nem mordas os teus netos!..."

De Textos em teto da Literatura Oral Timorense, recolhida por Artur Basílio de Sá

 

 

2º Parte

 

Timor: 500 anos de sangue, cinzas, lágrimas e solidão
Rosely Forganes

Os portugueses chegaram ao Timor entre 1512 e 1520, interessados principalmente no sândalo, madeira nobre utilizada na perfumaria e móveis de luxo, que cobria praticamente toda a ilha. Já nessa época o Timor era dividido em dois reinos, Samby, na parte oeste da ilha e Behale, no leste.

Só no século XVII Lisboa nomeou um governador, que dependia de Goa, outro território português, na Índia. Depois de uma série de disputas, os holandeses ficaram com a parte ocidental da ilha, atualmente o Timor Oeste.

Em 1903 um australiano descobriu a existência de petróleo na costa. No final da I Guerra Mundial, o Japão tentou comprar o Timor, oferecendo uma boa soma, o que foi oficialmente rejeitado por Salazar em 1932. O regime salazarista considerava os timorenses como "uma das raças degeneradas e atrasadas" das colônias, o que serviu de pretexto para retirar os direitos cívicos, ainda que mínimos, que tinham adquirido em 1822.

Território estratégico, entre a Austrália, Indonésia, Filipinas, dando acesso à China, o Timor foi invadido durante a II Guerra Mundial, primeiro pelos australianos, que pretendiam organizar uma resistência no território, em seguida pelos japoneses, que criaram campos de concentração, cometeram atrocidades em larga escala e deixaram 60.000 mortos.

O historiador James Dunn, que foi cônsul da Austrália em Dili de 1961 a 1963 afirma :"O Timor Leste foi uma das piores catástrofes da Segunda Guerra Mundial em numero de mortos relativo à população total, mas esse aspecto da Guerra do Pacífico nunca interessou ninguém".

O Timor saiu da II Guerra Mundial praticamente arrasado, mas Portugal continuou não investindo na colônia, preferindo Macau, mais lucrativa. Para o Timor, que produzia basicamente café- considerado um dos melhores do mundo- eram mandados os prisioneiros políticos e dissidentes do salazarismo.

Por outro lado, a PIDE, a polícia política de Salazar, reprimia, prendia e exilava aqueles que, no Timor, tinham veleidades nacionalistas.

Foi só nos anos 60 que Dili, a capital, começou a ter luz elétrica e nos 70 um mínimo de infra-estruturas, como água, esgoto, escolas e hospitais.
Nos anos 70, 90% da população vivia em zona rural. Dili tinha 30 mil habitantes e Baucau, a segunda cidade do país, 10 mil.

Em 1945, a Indonésia, sob o comando de Sukarno, conseguiu a independência da Holanda, passando a ser uma república em todo o território da antiga colônia, o Timor Oeste inclusive. Mas o governo de Jacarta não manifestou qualquer pretensão sobre o Timor Leste, território português.

Em outubro de 1966 o general Suharto derrubou o presidente Sukarno através de um golpe de estado. Em plena guerra fria, Suharto começou a "caça aos comunistas", uma repressão implacável em todo arquipélago que fez 500.000 mortos diante da indiferença geral. O exército indonésio, verdadeiro estado dentro do estado, começou a tomar conta de tudo, inclusive da economia, dividindo o país em verdadeiros feudos controlados pelos generais.

Com a Revolução dos Cravos, deflagrada no dia 25 de abril de 1974, tem início o processo de descolonização. Portugal deixou aos timorenses a escolha entre a independência e a integração à indonésia. Imediatamente, a Austrália, potência regional, se manifestou a favor da integração à Indonésia.

Os primeiros partidos políticos timorenses foram criados em maio de 1974. A poucos dias de intervalo são criadas a UDT - União Democrática Timorense, a ASDT, Associação Social Democrata Timorense e a APODETI, Associação Popular e Democrática Timorense, sendo que esta última prega a integração à Indonésia, quei mediatamente recebe o apoio do general Suharto. Em setembro a ASDT muda de nome para FRETILIM, Frente Revolucionária do Timor Oriental. Em junho de 1974 o jovem José Ramos Horta, representando o Timor à beira da independência, conseguiu ser recebido pelo ministro das Relações Exteriores da Indonésia, Adam Malik e obteve- por escrito inclusive- a promessa que o governo de Jacarta apoiaria a independência do Timor.
As duas eleições realizadas em fevereiro e março de 1975 foram ganhas pela FRETILIM, com 55% dos votos. Mais de 90% dos timorenses votaram pela Fretilim ou a UDT, a APODETI, apesar de financiada pela Indonésia conseguiu pouco mais que algumas centenas de votos. Os boatos de um golpe de estado marxista que estaria sendo preparado pela FRETILIM precipitam o Timor na guerra civil em agosto de 1975, fazendo 3.000 mortos. As tropas indonésias começam a se infiltrar no território pela fronteira com o Timor Oeste.

No dia 16 de outubro de 1975 cinco jornalistas estrangeiros foram assassinados pelo exército indonésio na cidade de Balibo, na fronteira, quando tentavam cobrir os movimentos de tropas indonésia no Timor Leste.

Diante da gravidade da situação, a FRETILIM declarou a independência no dia 28 de novembro de 1975, esperando com isso obter apoio internacional contra a invasão indonésia. No dia 7 de dezembro, o exército indonésio começou a bombardear Dili e a invadir o país, diante da indiferença geral. A Assembléia Geral da ONU condenou a invasão indonésia numa resolução aprovada no dia 12 de dezembro de 1975, mas que ficou sem qualquer efeito. Apenas um país, a Asutrália, reconheceu a autoridade indonésia sobre o Timor Leste. Começa a repressão que vai resultar na morte de 200 a 300 mil timorenses, seja pela violência direta, a fome programada, o deslocamento forçado de populações inteiras, a com criação de verdadeiros campos de concentração. A Cruz Vermelha Internacional, conhecida pela discrição, chegou a descrever a situação no Timor como "pior que a de Biafra".

A FRETLIM cria um braço armado, a guerrilha FALINTIL, que chegou a controlar 80% do território. Apesar da superioridade numérica esmagadora, do equipamento mais moderno vendido pelos Estados Unidos, Inglaterra, França e Austrália, os indonésios nunca vão ganhar a guerra contra as Falintil, que resistem 24 anos. O governo indonésio não hesitou em utilizar toneladas se napalm - o mesmo empregado no Vietnan- contra a resistência e incendiar boa parte das florestas do país para que os guerrilheiros não tivessem onde se esconder, nem onde comer. Vilarejos inteiros foram massacrados, cabeças decepadas de suspeitos de colaborar com as FALINTIL exibidas por toda parte.

Durante anos, o Timor Leste ficou totalmente fechado ao mundo, tanto ao mais que a Coréia do Norte. O Congresso Judeu dos Estados Unidos chegou a considerar o que aconteceu no Timor Leste como o maior genocídeo - proporcional à população- do século XX, logo após o holocausto nazista.

Certos especialistas consideram que foi ainda mais vasto, eliminando 44% da população do Timor.

No dia 31 de dezembro de 1978 o exército indonésio matou Nicolau Lobato, o líder da resistência e comandante das Falintil. Começa então a liderança de um de seus companheiros, José Alexandre Gusmão, conhecido na guerrilha como Ray Kala Xanana. Ele vai transformar as FALINTIL numa frente ampla de resistência a partir de 1987 e no ano seguinte criar o CNRT, o Consleho Nacional da Resistência Timorense, que reúne todos os partidos.

Em 1989 a Indonésia deu início a uma abertura relativa do território, que vivia num isolamento total. Em outubro, o papa João Paulo II visita o Timor, marcada por manifestações pró-independência, duramente reprimidas. No dia 12 de novembro de 1991 o exército indonésio atira na multidão que prestava homenagem a um estudante morto pela repressão no cemitério de Santa Cruz. Pelo menos 200 pessoas são assassinadas no local e outro tanto na caçada humana que continuou dias e noites, inclusive nos hospitais. As imagens do massacre, realizadas por jornalistas estrangeiros, fazem com que o mundo descubra a tragédia do Timor.

Em novembro de 1991 Xanana Gusmão é preso em Dili e levado para Jacarta, onde é condenado à prisão perpétua em 23 de maio de 1993 num julgamento considerado uma farsa por observadores estrangeiros. Em outubro de 1996 a causa do Timor ganha reconhecimento internacional com a atribuição do Premio Nobel da Paz ao bispo Carlos Ximenes Bello e José Ramos Horta . Em julho de 1997 o presidente Nelson Mandela visita Xanana na prisão e começa a fazer pressão para uma solução negociada. No mesmo ano começa a crise econômica na Ásia, que afeta duramente a Indonésia. O regime Suharto começa a ruir, com manifestações cada vez mais violentas nas ruas, que levam à demissão do general em maio de 1998 e à ascensão de Yusuf Habibie.

Portugal e a Indonésia negociam a realização de uma consulta popular. Uma missão das Nações Unidas, a UNAMET, se instala no território para supervisionar a realização de um plebiscito. Sentindo que vai perder o território, a ala mais dura do exército indonésio, recruta e treina milícias armadas que espalham o terror entre a população. Apesar de todas as ameaças, no dia 30 de agosto de 1999, mais de 98% da população vai às urnas, votar nu silêncio que os observadores internacionais são unânimes em chamar de impressionante. O resultado não deixam margem à dúvida: 78,5% dos timorenses escolheram a independência.

Antes mesmo da proclamação dos resultados, as milícias, protegidas pelo exército indonésio, desencadeiam uma violência inédita até nessa terra que acreditava já ter visto tudo. Homens armados de catanas ( imensos facões) e fuzis caçam e matam nas ruas todos aqueles que supõem ter votado pela independência. Milhares de pessoas são separadas das famílias, colocadas à força em caminhões que ninguém sabe para onde vão. A população começa a fugir para as montanhas ou buscar refúgio nas igrejas e prédios de organizações internacionais. Mas as milícias cercam e depois invadem a sede da Cruz Vermelha e as Nações Unidas. Todos os estrangeiros acabam sendo evacuados, deixando o Timor entregue à fúria das milícias e dos militares indonésios.

A ONU decide formar uma força internacional para intervir, mas espera a autorização da Indonésia, que negocia as condições. Os 2.000 solados da INTERFET só entram em Dili no dia 20 de setembro e encontram um país totalmente devastado e incendiado. Quando Xanana Gusmão volta à Dili, no dia 22 de outubro, ao ver o que sobrou do Timor, diz: "Eu achei que íamos ter que começar do zero. Mas é muito pior do que eu pensava". RF

 

 

 

 

 

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publicado por Dany Boy às 23:35

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